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quarta-feira, 17 de maio de 2017

Samurai Gourmet

por Gilmara Vesolli, gastróloga e sommelière da Casa do Vinho Famiglia Martini


Na fase em que o Brasil passou por uma ascensão econômica foi possível observar o fenômeno da Pirâmide de Maslow* a olhos vistos.

Uma vez que abandonemos (ainda que não muito) as preocupações básicas de subsistência, passamos a gastar mais tempo - e dinheiro - com coisas menos essenciais, entre elas, a Gastronomia.

Já há alguns anos que é possível encontrar em cada esquina um restaurante com comida mais bem preparada ou "gourmet", food truck gourmet, coxinha gourmet, churros goumet, pastel gourmet, uma infinidade de congelados gourmet, sorvete gourmet, cachorro quente gourmet, empada gourmet.

Cansou de ouvir essa palavra? Pois é. É o "raio gourmetizador" que caiu e deixou benefícios e malefícios.

A explosão dos cursos superiores ou de formação profissional na área da gastronomia formou centenas de pessoas que saíram das escolas cheias de energia e vontade de inovar e transformar. E a cozinha profissional sem dúvida ganhou muito com isso.

A perda foi em relação aos preços já que tudo o que o raio gourmetizador toca passa a valer pelo menos o dobro do preço. E também perdeu-se o prazer da simplicidade, as inocentes, românticas e deliciosas lembranças da infância, de quando um pacotinho de suco artificial congelado representava um prazer inigualável.

Tente comprar um chupchup (sacolé, geladinho ou outro sinônimo da sua região) hoje em dia e inevitavelmente você vai se deparar com a gourmetização: o mesmo pacotinho da infância, mas dentro dele, suco de limão siciliano, chá verde com frutas vermelhas ou frutas orgânicas colhidas por gêmeas siamesas. Moedinhas já não o pagam e o sabor da lembrança já não é mais o mesmo.

Nem tudo o que comemos precisa ser sofisticado, caro e super elaborado. A maior parte das boas lembranças ligadas à comida que eu ou você temos remete à comida do dia-a-dia. 

Comida gourmet pode atiçar os sentidos, fazer-nos viajar à um mundo cheio de sensações inimagináveis e extremamente saborosas. Mas ninguém deseja de verdade estar supersensível o tempo todo.

Um série japonesa criada pela Netflix traz uma experiência gastronômica atípica. Não se trata de uma superprodução relatando o dia-a-dia de chefs badalados ou cozinhas superdisputadas. 

É uma história simples a respeito de um recém aposentado que pela primeira vez na vida tem seu tempo livre de preocupações e resolve comer por prazer, seja onde for.

Um adjetivo basta para descrever os episódios curtos de cerca de 20 minutos: delicadeza. 

A série é feita para assistir e relembrar de seus próprios prazeres gastronômicos comuns, diretos e autênticos. Que quase sempre são os melhores. 




*https://pt.wikipedia.org/wiki/Hierarquia_de_necessidades_de_Maslow








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