As fotos e notícias do evento que aconteceu na Cosh ontem, dia 26, estarão aqui no blog até o final de semana. Estamos preparando uma ótima matéria para os leitores conferirem. Aguarde!
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quarta-feira, 26 de março de 2014
sexta-feira, 21 de março de 2014
A degustação, sem Chatice e sem Frescuras - última parte
Por Gilmara Vesolli, sommelière da Casa do Vinho - Famiglia Martini
Oba, oba! Chegou a hora! Depois de 4 longas semanas você finalmente vai chegar na parte mais gostosa da degustação: a análise ou observação gustativa.
Oba, oba! Chegou a hora! Depois de 4 longas semanas você finalmente vai chegar na parte mais gostosa da degustação: a análise ou observação gustativa.
Mas antes disso vamos
dar uma passadinha pela visão. Com o vinho na taça, depois de fazer
a observação olfativa, perceba a cor. Ele pode ser branco, rosé ou
tinto. E em todas as cores há uma grande variedade de tons.
E também pode ser um
vinho espumante de qualquer uma dessas cores.
Perceba se ele é
límpido, se há partículas suspensas, se é brilhante ou não,
transparente ou não. Não julgue o vinho apenas pela aparência.
Aliás, não o julgue ainda nem mesmo pelo sabor. Depois de algum
treinamento é que você estará preparado para fazer isso.
Então leve o vinho à
boca, deixe que ele a envolva e pergunte a si mesmo se o vinho a
envolve por inteiro, se é “pesado”ou não, ou se não é nem
gordo nem magro (corpo).
Engula o vinho e
observe a reação da sua boca. Você salivou muito (acidez), não
salivou, a boca secou, esquentou (álcool), ficou áspera (taninos)?
Se fosse um tecido, qual seria? Jeans, seda, veludo?
Se o vinho é
espumante, como foi a “picada” que o gás deu em sua língua? E
depois de engolir o vinho, quais aromas e sabores você sentiu via
retronasal (retrogosto)? Eram aromas agradáveis? E quanto tempo
esses aromas duraram (persistência)? Qual o sentido da vida, do
universo e tudo o mais (se descobrir me conte)?
Parecem muitas
perguntas, e são. Se você preferir, anote todas as suas impressões
em um caderno. Isso ajuda a memorizar, a guiar e aperfeiçoar seus
métodos. Lembre-se que degustação não é ciência, muito menos
exata. Você pode criar sua própria forma de degustar. Fica a seu
critério escolher as técnicas que melhor irão se adaptar à sua
maneira de degustar. Nem sempre o que funciona para mim vai funcionar
para você. Não leve tão a sério normas, regras e manuais de
degustação. Não aceite tudo o que é dito sobre o vinho como
verdade.
Dispa-se de
preconceitos. Uma degustação perfeita é aquela em que não
comparecemos armados de clichês – e eles existem aos milhares. Não
tenha pressa. A cada garrafa aberta você adquire mais experiência,
mais “litragem”.
Me despeço com uma
dica de ouro: mantenha sempre a humildade diante do vinho. Ele com
certeza vai surpreendê-lo quando você achar que sabe tudo sobre
ele.
Merlot? Como assim?!
sexta-feira, 14 de março de 2014
A Degustação, sem Chatice e sem Frescuras - quarta parte
Por Gilmara Vesolli, sommelière da Casa do Vinho - Famiglia Martini
Agora que já desvendamos como funcionam os quatro sentidos em uma degustação, vamos à parte prática.
Agora que já desvendamos como funcionam os quatro sentidos em uma degustação, vamos à parte prática.
Abra uma garrafa de vinho,
preferencialmente tinto, seco, fino e de qualidade. Use uma taça
transparente e bojuda, de cristal ou cristal misto. Não é frescura.
O cristal é mais transparente que o
vidro e não distorce a visão do vinho. Além disso ele é mais
áspero e ao girar o vinho em uma taça de cristal as moléculas
responsáveis pelos aromas “quebram”, liberando os aromas de
maneira mais fácil.
O bojo grande ajudará na distribuição
do ar pela superfície do vinho e consequente liberação dos seus
aromas.
E não esquecendo do tato, o contato
dos lábios com uma taça de cristal é muito mais agradável que
numa taça de vidro.
A ordem empregada em uma degustação
de vinhos normalmente é essa:
Análise visual, depois análise
olfativa e então gustativa.
Eu particularmente, não gosto de
empregar a palavra “análise”. Prefiro “observação”. Porque
no fundo, no fundo, quem sai analisado é a gente. Também gosto de
inverter a observação visual e a colocar em segundo lugar, depois
da observação olfativa.
A razão da inversão é simples: a cor
e outros aspectos visuais do vinho permanecerão ali até o final,
enquanto alguns aromas mais sutis poderão se perder enquanto você
observa a cor do vinho.
Também percebi que é mais complicado
sentir os aromas do vinho quando se mete o nariz todo dentro da taça.
Tente incliná-la até que o vinho chegue bem próximo à borda,
então coloque a ponta do seu nariz no lado oposto. Fungue várias e
rápidas vezes.
Isso pode exigir treino e camisas
escuras, mas o resultado costuma ser muito bom.
Se você já está com o vinho em mãos,
vamos adiante!
Antes de mais nada, incline a taça,
coloque seu nariz na posição e cheire. Procure esvaziar a mente.
Não tente nomear os aromas em um primeiro momento, apenas deixe-se
levar.
Procure memorizar as impressões
sentidas.
É comum que algumas pessoas sintam
apenas o cheiro de álcool. Ultrapassar essa barreira as vezes é um
pouco complicado, mas não impossível.
Pense nos aromas do vinho como uma
massa folheada. São várias as camadas de finíssima massa, uma
sobre a outra, juntando-se e formando uma coisa só.
Com os aromas acontece a mesma coisa. O
álcool é apenas a primeira folha ou camada. Alguns vinhos possuem
poucas camadas, outros, muitas.
Repita o processo de cheirar, fungando.
Observe se os aromas modificaram. Aposto que sim.
Lembre-se que o olfato cansa, então
não precisa exagerar.
Para treinar seu nariz, use-o no seu
dia a dia. Não perca a oportunidade de rasgar folhas de árvores,
cheirar temperos, entrar em contato com aromas misturados uns aos
outros, como em uma feira. Perceba os aromas que lhe agradam ou
desagradam, e porque. Observe como frequentemente associamos um aroma
a uma cena e que cada vez que seu nariz o sentir você será remetido
àquela cena.
Durante essa semana faça apenas essa
observação olfativa de todos os vinhos que você conseguir. Semana
que vem a tortura acaba e você finalmente poderá provar os vinhos.
Até lá!
sexta-feira, 7 de março de 2014
A Degustação, sem Chatice e sem Frescura - terceira parte
Agora vou falar sobre o gosto. Para começar é importante deixar claro: o gosto é a mistura do sabor e dos cheiros dos alimentos. Não comemos pelo nariz, mas comemos com o nariz.
Existe um canal de ligação entre a garganta e esse órgão, então toda vez que você mastiga e engole um alimento, está sentindo seus aromas via retronasal.

Lembra daquele mapinha da língua que seu professor te mostrou na quinta série? Você aprendeu que a língua é dividida em “setores” e cada um deles é responsável por sentir um dos 4 sabores: doce, amargo, ácido e salgado.
Então agora esqueça disso. Há alguns anos não apenas se descobriu que o mapa da língua não faz sentido – podemos perceber os diferentes sabores por toda a língua – como também pelo menos mais um sabor foi acrescentado à lista antiga. Esse relativamente novo sabor é o umami. Os japoneses já o conhecem faz tempo. É aquele gostinho estranho e indecifrável que o Ajinomoto tem.
E convém deixar a lista de sabores em aberto porque acreditam os especialistas que novos sabores poderão ser descobertos.
Em uma degustação de vinhos o papel da boca é secundário. É o sabor que causa o maior prazer e satisfação, obviamente, mas tecnicamente é possível sentir muito menos coisas na boca que no nariz. São cinco sabores que a língua pode detectar versus cerca de 1.500 aromas possíveis no vinho e detectáveis pelo nariz.
Porém o paladar não é só sabor. É também tato. Não existisse tato na boca, todos os beijos seriam sem graça.
Embora não estejamos acostumados à ideia, podemos sentir na boca impressões táteis semelhantes às que sentimos nas mãos. O peso (ou corpo) do vinho, as sensações térmicas causadas pela temperatura do vinho ou seu teor alcóolico (o álcool seca e esquenta a boca), a acidez (que causa salivação) e a picância causada pelos gases dos espumantes são todas sensações percebidas através do tato.
Imagine-se tocando um pedaço de seda, um jeans ou um veludo. Quais são as diferentes sensações sentidas?
É possível ter sensações muito semelhantes na boca ao beber um vinho. Não é a toa que as descrições por vezes usam palavras como “sedoso”, “áspero” e “aveludado”.
Experimente pegar diferentes tipos de pesos, colocar nas mãos e sentir o espaço que ocupam. Vinhos encorpados, “gordos” ocupam toda a boca e causam a sensação tátil de preenchimento enquanto vinhos mais “leves” causam menos sensação depreenchimento.
Através de outro sentido, a visão, podemos identificar o tipo de vinho - se branco, tinto, rosé, espumante – e ter uma ideia de sua idade e estado de conservação. Bebemos com os olhos antes de mais nada.
E qual é o papel da audição em uma degustação?
Um ambiente ruidoso pode interferir indiretamente na apreciação do vinho. Os sons podem desconcentrar logo quando você está prestes a descobrir que raio de aroma é aquele. Um baile funk não é, definitivamente, um bom lugar para se degustar vinho.
Aproveite essa semana para treinar os seus sentidos e semana que vem esteja com um vinho e uma taça na mão porque a parte prática e gostosa vai começar!
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
A Degustação, sem Chatice e sem Frescura - segunda parte
Por Gilmara Vesolli, sommelière da Casa do Vinho - Famiglia Martini
Chegamos ao grande momento em que o ser
humano conseguiu se equilibrar sobre duas patas!
Isso foi excelente para a evolução de
modo geral, mas bastante infeliz para a coluna e deplorável para o
olfato.
Andando com o nariz afastado do solo,
deixamos de sentir diversos cheiros. A evolução, que nos fez capaz
de inventar armas de caça, também fez com que a visão se tornasse o sentido mais importante.
Continuamos evoluindo, criamos os
primeiros grupos sociais, as primeiras cidades, guerras, religiões,
trânsito, filas de banco e tudo o mais que é possível encontrar em
uma civilização. E por causa da evolução o olfato continuou mudando.
A descoberta das causas das doenças e
a ideia de pecado e devassidão fizeram com que cheiros antes
considerados normais fossem vistos de outras maneiras. Fezes,
secreções, podridão ganharam etiquetas de “nojento”, “pecado”,
“cruzes!”.
Por outro lado os aromas considerados
agradáveis passaram a ser reproduzidos através de técnicas de
extração até chegar à moderna indústria que sintetiza em
laboratório desde o perfume da rosa até o aroma de couro do boi
marrom chamado Zé.
No mundo moderno temos um gigantesco
leque de cheiros agradáveis e desagradáveis, quase sempre
artificiais. Entre em um shopping e você saberá do que estou
falando. Lojas com aromas próprios que nos fazem relaxar, comprar
mais ou nos remetem à fazenda.
Nas cidades grandes sentimos cheiro de
asfalto, de combustível, de fumaça de carros. Produtos de limpeza
cheiram a falso eucalipto, queijos e embutidos suspeitos, a falsos defumados.
Diante de tanta artificialidade
acabamos por estranhar a imensa variação de aromas naturais. Um
pêssego tem aromas completamente diferentes a depender do seu grau
de maturação, da insolação, do tipo e do terroir. Um suco de
pêssego industrializado terá sempre o mesmo cheiro.
Sabendo disso tudo que tal treinar um
pouco seu olfato durante essa semana? Desperte seu nariz e seu olfato
“primitivo”! Semana que vem falarei sobre o papel do paladar,
visão e audição na degustação de vinhos.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
A Degustação, sem Chatice e sem Frescuras – Primeira parte
Por Gilmara Vesolli - sommelière sem superolfato
Sim, esse texto é para você que tem
vontade de se encolher só por pensar em uma degustação de vinhos.
Afinal, fala-se de coisas a princípio inimagináveis: aromas
diversos, texturas e outras coisas aparentemente perceptíveis apenas
para pessoas superdotadas de sentidos.
Serão cinco textos, postados
semanalmente, para que você possa colocar em prática o que
aprender. Longos, mas pedagógicos. E nada sonolentos, prometo.
Para que possamos entender a
degustação, vamos destrinchá-la, observar sua estrutura e sua
articulação e só depois que não houver mais segredos passaremos à
parte prática. Me acompanha?
Falar em degustação de vinhos é
também falar em evolução humana. Portanto vamos começar nossa
jornada há milênios, quando ovos não vinham de supermercados, não
existia papel higiênico e o homem andava sobre 4 patas.
Nesse tempo sem linguagem, quando
supostamente falávamos apenas “uga-uga!”, sem energia elétrica
ou armas de caça, o homem primitivo necessitava do olfato muito mais
que de qualquer outro sentido.
Pelo nariz ele percebia a presença do
inimigo, da caça, da fêmea no cio. Em uma noite do mais absoluto
breu valia mais saber as diferenças sutis entre o cheiro do veado ou
do leão. E também ouvir, muito bem. Ter um bom olfato significava a
diferença entre a vida e a morte.
Nessa era distante estávamos com o
nariz bem mais próximo ao solo onde está uma enorme parte dos
cheiros, o que os tornava corriqueiros.
Para que você tenha uma ideia da imensa
importância do olfato para o homem primitivo, o centro reponsável
por sua decodificação – sistema límbico – é uma das partes
mais primitivas e protegidas do cérebro. Fica localizado entre as
sobrancelhas, mas muito mais para trás. É muito difícil atingir
esse centro e mais difícil ainda danificá-lo.
Acredita-se que a
nossa capacidade de sentir e expressar emoções tenha se
desenvolvido a partir de
células olfativas. Portanto, primeiro aprendemos a cheirar e usar
nosso olfato para só então sentir emoções!
Ainda curioso?
Semana que vem tem a segunda parte do texto. Até lá!
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